'Lula tem de explicar a responsabilidade dele em todos esses processos'

'Lula tem de explicar a responsabilidade dele em todos esses processos'

28/11/2015 - 09:57

Depois de trabalhar como “bombeiro” nas últimas semanas, para abrandar o ímpeto do PSDB em relação ao impeachment de Dilma, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso deixou a diplomacia de lado, ao comentar a possibilidade de um possível encontro com Lula, para garantir a governabilidade do país.

“Eu disse toda a vida 'na hora que o Lula quiser'. Mas não adianta conversar com o Lula agora. Toda hora aparecem problemas de envolvimento, que chegam próximos ao Lula. Quero ver se ele para em pé primeiro”, afirmou Fernando Henrique, durante encontro com empresários nesta sexta-feira, em São Paulo. “O Lula tem de explicar qual a responsabilidade dele em todos esses processos que estão aí. Enquanto ele não se explicar, não tem o meu respeito. Se ele se explicar, pode ser que me convença de que não tem nada a ver com o que está aí. Mas, enquanto não tiver o meu respeito, eu não falo com ele.”

Ao participar do painel Os desafios do Brasil para as próximas décadas, que contou também com a presença da ex-senadora Marina Silva, da Rede Sustentabilidade, Fernando Henrique disse que só é possível conversar “quando você tem um interlocutor com a mesma boa fé que nós temos”.

Ele contou um episódio recente para mostrar o quanto é difícil negociar com Dilma, Lula e o PT. Segundo Fernando Henrique, na época das manifestações de rua, em 2013, Dilma pediu que o ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, o procurasse para ajudar na reforma do sistema político do país:

– Em um domingo, ele me telefonou. Na segunda-feira foi na minha casa. Ele disse o seguinte: "O senhor está disposto a ajudar na reforma do sistema político brasileiro?" Pois não, estou disposto.

Na conversa, de acordo com Fernando Henrique, ele procurou mostrar a Cardozo algumas questões consideradas essenciais para a negociação ir em frente:

– Primeiro, no PSDB, eu não mando. Posso falar por mim. Tem de conversar com algumas lideranças. Segundo, no seu partido, há uma pessoa que manda – o Lula. O que ele pensa sobre isso? Terceiro, a presidente da República está disposta a coordenar ela mesma o processo? Porque se não estiver, não vai funcionar. Quarto, dá para a gente fazer isso sem anunciar, ter algum conteúdo antes de anunciar?”.

Todos os pontos, segundo Fernando Henrique, foram prontamente aceitos pelo ministro Só que, mesmo assim, a negociação acabou fracassando antes mesmo de avançar:

– No dia seguinte, eu estava dirigindo, o ministro me telefona. Ele diz: ‘Presidente, vazou’. Claro que vazou. Ontem mesmo o Aécio me ligou perguntando como foi nossa conversa, e não foi por mim que ele soube. ‘Ah, foi por aqui mesmo’.

Fernando Henrique afirmou que ainda tentou minimizar o vazamento para não interromper a negociação:

– Disse: qual o problema de ter vazado? Não tem nenhum. Vamos fazer como Golbery (do Couto e Silva, ex-chefe da Casa Civil nos governos Geisel e Figueiredo) com Ulisses (Guimarães, ex-presidente do PMDB). Fizeram um encontro e combinaram que iam negar. Todos sabiam que eles haviam feito o encontro. Você vai negar, eu vou negar, mas todo vai saber que houve o encontro. Dali a pouco, ele liga de novo. ‘Não dá para negar, já sabem de tudo’. Aí, eu disse: 'É verdade. Só que ontem você não falou comigo sobre Constituinte provisória, nem plebiscito'. Ele não sabia. ‘É, o senhor tem razão. A presidente andou conversando com outras pessoas, teve outras ideias e soltou no jornal'.

Ao concluir a história Fernando Henrique pergunta:

– Se o interlocutor não consegue politicamente entender a gravidade do momento, como você vai conversar?

Ele mesmo responde, como se fosse seu próprio interlocutor:

– Só dá para conversar quando você tem um interlocutor com a mesma boa fé que nós temos.

Fonte: Com informações de Época/Blog do Fucs